sexta-feira, 27 de abril de 2012

SALA DE ESTAR I

Sim! É por algum motivo que pessoas entram em nossa vida.
Muito gostoso quando elas chegam de forma inesperada e pouco a pouco tomam conta da aconchegante sala de estar de nossa vida.
Constantemente faço convites para que novas pessoas tomem um café comigo e saboreiem o melhor biscoito. Algumas chegam educadamente, sentam-se e ali ficam. Preferem não ter o trabalho de ir e voltar. Simplesmente permanecem. Não se preocupam com o tempo ou se o café não está na temperatura ideal. Detalhes são só isso, meros detalhes.
Outras ficam inquietas, perturbadas. Basta uma sentada para um bate-papo para eu perceber quão desconfortáveis se sentem no meu ambiente. Talvez por ser pequeno, singelo demais e sem luxo. Quiçá por eu servir a bebida mais simples, ainda que na melhor xícara pintada a mão. A prosa não flui. O enfadonho monólogo é essencialmente evitável.
Elas reparam na cortina, na cor da xícara. Reclamam do café. O biscoito não é o importado da melhor marca, tampouco do sabor que elas esperavam. O sofá causa dores lombares e o espaço não tem ventilação nem ar condicionado. Por fim, queixam-se da textura do tapete. É o gancho que queriam para ministrar uma palestra sobre as novas tendências de tapetes do mercado internacional. Isso quando não se esquecem do horário enquanto criticam comportamentos alheios ou se autoveneram.
Nessa hora, meu silêncio se cala. Ele se põe a refletir. Minha alma não se alegra, minha boca não esboça nem o mais tímido dos sorrisos.
O estar nessa sala se torna dispensável pra mim. Os balões coloridos que enfeitam o ambiente parecem murchar. Meu coração se esquiva a cada palavra proferida. Não há partilha. São ideias e ideais díspares. Rouba-se o tempo. Eu já tenho vontade de fugir dali.
É quando percebo o motivo de elas me visitarem.
Todo mundo deveria ter a oportunidade de conhecer pessoas assim. Simplesmente pra ter o prazer de dispensá-las mesmo antes de elas terminarem o último assunto.
Eu gostaria, sim, de chamar a isso de amizade, só que meu coração não deixa.
Minha sala jamais será acolhedora quando os visitantes não chegarem dispostos a emprestar seu estimado tempo e estiverem propostos a respeitar, a sentar no chão, a chorar ou rir comigo. Ainda que a pauta do dia não seja a mais agradável, tem que haver cumplicidade. Tem que ter o amor humano. O sentimento que não afasta.
É válida a experiência de caminhar pela sala de estar de nossa vida e encontrar por lá pessoas que até então não conhecíamos. E é sábio aquele que tem a sensibilidade de perceber quando algumas delas estão incomodadas e desconfortáveis no ambiente especialmente preparado para recebê-las.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

AMOR DE FUNDAMENTAL I


- Oi, você está solteiro?
- Não!!! E mesmo que eu estivesse, você não faz meu tipo.

Foi assim o primeiro fora da longa experiência de vida daquela mulher, que, choramingando, sai à procura de consolo.

- Amiga, ele me deu um fora. Estou mal. Não consigo parar de pensar nele, de olhar pra ele, de sonhar com ele. É hoje que não durmo de novo.
- Honey, isso vai passar. A fila anda, meu bem. Você é mulher de atitude.
- Ah, e, mundando o assunto, como está seu rolo com aquele garoto?
- Continua do mesmo jeito. Os pais dele não me aceitam. Estamos namorando às escondidas. É bem mais prazeroso, apesar de tudo.

A prosa rolou por minutos. Ali, falaram de namoro, baladas, tipos de beijos e até sexo. Eu permanecia num silêncio contemplativo, fazendo esforço pra não parecer antiquada.

As roupas eram muito justas. As calças delinearam as abjetas curvas. Os saltos tinham pouco mais de dez centímetros e as unhas traziam cores marcantes.
Nos cabelos, além das mechas coloridas, delicadas presilhinhas de lacinhos.
Os rostos pesavam com a forte maquiagem. No sorriso, destacavam-se aparelhos ortodônticos.
Andavam em grupos e chamavam os garotos à atenção. Muitos deles não perdiam em nada para cães salivantes e famintos.

- Oi gatinho!

Percebi que elas é que atacam mesmo.

- Olá!
- Qual seu nome?
- João Maurício.

Ele foi o novo alvo, eu pensava. Estaria feliz ou assustado?

- Sabe o que é, João?!... Tem uma amiga minha super a fim de você. Ela acha você bonito e bem gostoso.

De enrubescido a pálido, de pálido a enrubescido. O garoto ficou imóvel.

- O que foi, gato?
- Nada, nada. Estou um pouco tonto. Deve ser o calor.

E o menino continuou:

- Diga a ela que tenho compromisso.
- Ok, eu falo, mas ela já adiantou que não é ciumenta e que topa só um lance.

É neste momento em que o sino soa para que voltem às salas de aula.
O bate-papo foi interrompido. Era o término do recreio e a volta à realidade de crianças de quarta série do ensino fundamental.

sexta-feira, 30 de março de 2012

DESENROLAR DA QUADRILHA (de Drummond)



"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.”
[...]

No final, Lili se casa com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Mas sabe-se que esse moço queria formar família. Depois de onze meses do enlace com Lili trouxeram à luz o pequeno Frankuiney. Em seguida, veio a doce Joquebedes e, mais pra frente, os gêmeos Litibenque e Achillynney.

O mais velho, aos dezoito, saiu de casa e, amando Zoneide, sobrinha-neta do João, aquele que amava Teresa antes de ir para os Estados Unidos, uniu-se em matrimônio à moderna e se mandou a um lugar desconhecido.

Joquebedes, toda meiga, virou meretriz. Conheceu Juasine, Risoleta e Bissetriz. Com elas foi morar e seu passado fez questão de apagar.

Os gêmeos, com quinze anos, começaram a namorar. Litibenque com Anaslete, Achillynney com Deusdete. Anaslete já tem barriga, John Weire está por vir. Deusdete por desgosto, já ensaia com outro fugir.

Eclésia é uma garota que nessa história apenas passa. Joquebedes não a quis, pastor Welbis a rejeitou. Sua origem se perdeu, Madre Teresa a aceitou. Hoje espera por adoção, aguarda uma alma de bondoso coração.

Kiovranny, Baruel e Anaslete esperam por DNA. Não se sabe de que amor vieram a brotar.

Lili hoje só chora e J. Pinto Fernandes queria mesmo era ter ficado de fora.
Ninguém ama ninguém.
A história toma novo rumo agora.

Referência: Quadrilha de Drummond.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O QUE TEM DE BOM?!

Já viram aquela pessoa que implica ou reclama de tudo?
Pois é! Ela se torna um saco tão grande que quase ninguém suporta carregar.
Seu pessimismo faz mal. De tudo reclama e não tem a mínima sensibilidade pra perceber que o problema muitas vezes é com ela mesma.
Gente neurótica, isso sim.
A fila do supermercado está grande, reclama. Faltaram dez centavos no troco da farmácia, resmunga. O dentista, sempre pontual, atrasou um dia, ela ameaça fazer uma denúncia no Conselho Federal de Odontologia. Fogo de palha. Intimida toda vez e nunca sai disso. O negócio é fazer alarde, e aparecer, claro, já que sofre de carência afetiva por não ter amigos.
A criatura acha que pode fazer escândalo em toda e qualquer situação, pois é sempre a vítima, a lesada.
O ônibus está lotado, já entra xingando, estragando o dia de todos que ali estão. Se está sentada, reclama do calor e jamais oferece seu lugar ao idoso que parou do seu lado.
O cachorro late na rua, ela o amaldiçoa. O gato mia, ela quer matá-lo.
Ao seu bom dia, às sete da manhã, ela retruca com um "tem nada de bom pra mim".
Você se aproxima todo alegre contando que vai fazer uma viagem, ela comenta que a estrada é perigosíssima e que várias pessoas já morreram ao passarem por lá. Aí ela dá detalhes dos acidentes. Você sai animado com tanta positividade.
As datas festivas são sempre detestáveis. A enfermidade de espírito é tão absurda, que a pessoa não gosta de Natal porque é triste, de Ano Novo porque tem barulho, de Páscoa porque engorda, e por aí vai. O sentido das comemorações, ela abstrai. Criticar é o bastante, o tônico a alimentar sua alma.
Ela tem mil livros de autoajuda, com palavras que não fazem nem cócegas no seu íntimo.
- Oi, amiga, tudo bem?
- Não! Se eu estivesse bem, estaria rindo aos quatro cantos.
É assim mesmo que, secamente, ela te responde.
- Posso te ajudar em alguma coisa?
- Ah, pode! Arrume um novo emprego pra mim, com o melhor salário. Encontre um homem que me ame e que seja lindo e rico. Pague minhas contas, que fica tudo certo. Será uma grande ajuda. Desconcertadamente, você sorri e insinua ter levado na esportiva. A situação causa um desconforto grande e sua vontade é mandar esse ser fracassado pra uma PeQuePê qualquer.
Sem palavras, sua cara é de bobo alegre. Bobo alegre, mas bem feliz e otimista, pois estuda, batalha pra ter sucesso e sorri apesar dos percalços. É o que, às vezes, incomoda muita gente.
Quer saber? A próxima vez em que ela reclamar da chuva não a deixou dormir, peça a ela pra ceder sua casa e sua cama àquela família que ficou sem teto devido à mesma chuva.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

SEX-APPEAL?

O ônibus estava lotado e o calor a fazia suar.
Eu a observava desde a passagem trinfal pela roleta. Um palmo de short, meio de blusa. Sutiã nadador quase branco totalmente à mostra, blusa preta com finas alças que, por sinal, não acompanhavam o design da lingerie. Saltos bem altos, cor rosa ciclete. Rosto maquiado, cabelos bem chapados. Sorriso parcialmente destruído por cáries frontais. Bijouterias chamativas nas orelhas e braços. Nas costas, uma tatuagem mal desenhada, quase caseira, ajudava a compor aquela exuberância humana.
Ela era do tamanho GG e vestia um manequim PP. Os seios à mostra, claro. A barriga, também nua, pendurava-se sobre o cós do short. Ali, naquela região abdominal, um adereço que se assemelhava a uma partícula de purpurina metálica surgia e ressurgia de acordo com os movimentos de seu corpo. Um piercing à espera de resgate - sarcasticamente, eu pensava.
Ela estava em pé, próxima ao banco onde estava sentado um rapaz de, aparentemente, 25 anos. A cada curva do ônibus, ela encostava nele. A cena causava-me desconforto e vergonha, sensação esta explícita também nos olhos da vítima. Ela sorria pra ele e erguia o short. Ele se esquivava e suava.
- Aaai! Está balançano, né? - desculpava-se, passando as mãos nas coxas cobertas por grossos pelos descoloridos.
O celular vibra e, obviamente, não poderia estar em outro lugar. Acomodava-se entre os seios, moda Larissa Riquelme.
É na mesma hora em que o rapaz aproveita para sair de perto de toda aquela personificação de sensualidade. Assustado, foge secando o rosto com uma toalhinha. Até achei graça, confesso.
Pelo papo, a ligação já era aguardada. Alguém que a esperaria em seu destino.
A auto-descrição não era nada confidencial:
- Ah, bebê! Eu estou com aquela blusinha preta - a do decote, sabe? -, um shortinho jeans. Por baixo eu não posso falar, né? no ônibus.
As pessoas entreolhavam-se pasmas. Ela não economizava no tom de voz. Eu só registrava.
Abaixei a cabeça quando ouvi a despedida:
- Você, também, amor, deve estar lindo como sempre. Hoje eu acabo com você.
Quanto delicadeza! - escapou de minha boca.
Como toda aquela beldade poderia despertar algum prazer em um homem dotado de suas faculdades mentais normais?
Aquele conjunto fechado de vulgaridade, depravação e relaxo causou-me entranhamento. E chamou todos à atenção.
De sexy, passou longe. Atraente? Só para o "bebê" do outro lado da linha.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

BOM NEGÓCIO


Aquilo era minha vida, ali sempre seria meu lugar.
Vender é uma atividade instigante pra mim. Aprendi com meu falecido pai. Ele também fazia negócios no calçadão.
Acordei confiante naquela manhã. Falei pra velha e meus sete filhos que o dia seria bom.
Era segunda-feira. Passei no bar do Beto, tomei aquela branquinha. Avistei quando um batalhão armado vinha feito uma matilha de cães famintos pra cima de meus camaradas do ponto.
Fui me aproximando e perguntei a um fardado: o que tá pegando aí, meu chapa? Parecendo nervoso, só deu um sinal com a mão pra eu me afastar. Afastei-me, afinal, não entendia nada... O centro estava agitado. Tanta gente, uma loucura. Objetos voando pra lá e pra cá. Vi até sangue. Contei mais ou menos uns cinquenta policiais em volta dos camelôs.
Minha mochila com meus CDs e DVDs estava comigo. Várias novidades.
Que ninguém tente se aproximar, pensei. Deu um trabalho danado pra contrabandear tudo. Não saberia calcular o prejuízo caso eu perdesse minha mercadoria.
Ah... Não pude aguentar assistir a tudo de longe. Fui até lá. Ajeitei-me até achar uma brecha e alcançar o meio da confusão.
Que tensão!
Em alguns minutos, estava lá pra ver: tudo a preços promocionais: 5 CDs por R$ 10,00, notebooks por R$ 99,99, ipads por 49,99... Os mais variados tipos, estilos e marcas.
Emocionante foi ser derrubado dois guardas muito fortes que brigavam por um CD daquele cantor do “Ai se eu te pego”. Ao lado, o capitão do grupo, feliz da vida, exibindo a coletânea de R$ 3,99 de uma funkeira famosa.
Não tive escolha. Momento perfeito pra eu vender toda minha mercadoria. Coloquei meu mochilão no chão, anunciei tudo a um precinho bem mais camarada. Sucesso total! Em poucos minutos vendi tudo.
A noite já caía quando dava a hora de voltar pra casa.
O bolso cheio. A gurizada teria leite no dia seguinte.
Ofereci meu cartão e hoje a autoridade é cliente fiel.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ANTES CEDO DO QUE NUNCA

Sim! Intolerante é meu maior atributo quando se trata de horário ou, melhor dizendo, da falta de pontualidade.
Sistemática? Talvez.
Se o objetivo é não chegar no horário, então não marque hora, tampouco minutos.
Relógios e tempos marcados só estressam os pontuais.
Há quem diga que atrasar é chique. É... De repente falta de respeito mudou de nome e a intolerante que vos escreve é apenas a nervosinha da vez.
Esperar não me apetece!
Atraso sem prévia justificativa é elemento ornamental para uma briga bem expressiva.
Eu tenho um tal objetozinho chamado relógio e faço bom uso desde que aprendi a interpretar o rodopio dos ponteiros. Admito que não sei me nortear muito bem pela sombra projetada pelo sol.
Confesso também que já me atrasei, e, mesmo justificando previamente, a vergonha ainda fez questão de estampar minha cara.
Saber esperar é ter sabedoria. Sim! É ser sábio quando se trata de ter esperança de que dias melhores virão, de que a chuva vai passar pra você sair com seu amor, de que alguém ficará curado de uma doença... Neste caso, é fato. Saber esperar é virtude, é ser inteligente.
Agora... O saber esperar denotando o aguardar pacientemente, contando os minutos... Ah! Essa é a arte do tolo, do passivo de suportar falta de atenção, comprometimento.
A modernidade não trouxe os mais eficacíssimos meios de comunicação? Então... Tirar proveito disso por uma questão tão simples pode mostrar delicadeza, não acha? Uma transmissão de mensagem com poucos caracteres como "vou atrasar por dez minutos", ou até se o atraso for de uma hora, um dia, um mês, evitaria grandes constrangimentos.
Atraso, definitivamente, não é bom. E isso vai de pagamento à menstruação. Claro que, em relação ao último, depende das circunstâncias.
Se a falta de pontualidade é um problema cultural ou não, eu não me arrisco a discutir. O que sei é que o ser atrasado tem sua imagem afetada. Ele pode até não saber, todavia, um dia pagará muito caro por isso. Ah, vai.
Esperar é perder tempo. E, enquanto tiver gente tolerante ao atraso dos outros, a situação perdurará.
Se você não tem compromisso e respeito para comigo, nunca terá também o que espera de mim.
Se pra você está bom assim, pra mim pode ficar melhor. Eu não desprezo a pontualidade considerada por mim um valor moral. Ser sectária do intolerantismo é uma qualidade minha.

- Nossa! Você pegou trânsito? Problema seu! Saísse antes de casa.

- Puxa! Quinze minutos só você atrasou? Que pena! Tive sono, resolvi colocar o pijama e ir dormir. Amanhã a gente sai, amor.

- Ah, você encontrou o amigo que não via há tempos? Que bom, hein! Agora vai lá e fala pra ele te dar o emprego.

É por aí que funciona.
Espero você aqui, na próxima sexta-feira, neste mesmo horário.
Combinado?

Não atrase, por favor. "Antes tarde do que nunca" pra mim não cola.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RELAÇÕES MODERNAS

Engraçado...
Há poucos anos, quando você ouvia falar em modernidade, via que isso soava positivamente. Hoje nem tanto.
Tudo é moderno, tudo está moderno. Até as relações humanas.
A modernidade agora assusta. O tudo ao mesmo tempo amedronta.
A era facebook, por exemplo... Esta vem massacrando o olho no olho. Uma frieza esquisita tomou conta das pessoas. Não é preciso nutrir qualquer sentimento para se tornar amigo.
E é por isso que a mesma amizade pode ser desfeita com um clique.
As pessoas são descartáveis. Você se torna dispensável do dia pra noite. De um minuto pro outro. De um segundo pro outro.
Quando seu amigo de mentira não te curte mais, ele te deleta. Simples assim.
Até que ponto isso é avanço?
A essência da vida está escapando pelos nossos dedos sem a gente perceber.
Na era das novas tecnologias, que, claro, não obrigam ninguém a nada, as pessoas sentem uma necessidade louca de estar por dentro de tudo, conectadas a todo instante a um bando de desconhecidos só pra não ficarem fora da conversa que rola na mesa do bar.
Será que não nos damos conta que, mesmo sem notar, estamos dando importância demais à essa modernidade, a ponto de substituir o contato humano pelo contato virtual?
A troca de informações, a recomendação de notícias importantes do cotidiano, o expressar-se publicamente... Tudo isso é bacana e dá pra curtir.
Mas e os amigos de verdade que estão ficando esquecidos, sendo trocados por centenas de contatos desconhecidos ou amigos de mentirinha?
Pare por um minuto e pense quantos minutos do seu preciosíssimo tempo você está dedicando a eles.
Ele fez aniversário. Você telefonou pra ele?
No Natal, você enviou um cartão?
Não precisa responder...
A modernidade se incumbe disso.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ACORDO (NADA) ROMÂNTICO

É sempre comum jantares a dois nos últimos dias do ano. Ensejo para conversar sobre o que fizeram juntos, traçar metas para os meses seguintes, além de ser um momento de descontração, alegria.
Entra no restaurante um casal. Ela aparentando uns trinta e cinco, ele não mais que cinquentão. Acomodam-se em uma mesa próxima à nossa. Eu observo.
O celular dele toca. Atende, sorri, relaxa na cadeira. Ela coloca seus óculos e fita os olhos na tevê, a exibir a novela das oito – sempre às nove.
Quando meu parceiro e eu acabávamos de jantar, vi que ele desligava o celular. Eu, sem nada a ver com a situação, já me sentia incomodada em minha condição de mulher bem resolvida. A esposa, amásia, amiga colorida ou namorada dele já devia estar carente, além de faminta.
Resolvem fazer o pedido.
O jantar chega e um novo trrrimmmm remixado interrompe a fala dela. Eu analiso.
Ela percebe que o jantar vai ser a um mesmo, e não a dois. E o bate-papo gostoso? Este ficaria para o fim da noite caso sobrasse disposição; e saco...
Com o aparelho nas mãos, o coroa se levanta e vai até a parte externa do recinto. Lá permanece por uns dez minutos. Falando, rindo alto, e me irritando – mais a mim que a parceira dele.
Enquanto isso, a moça ceia com a companhia das cenas globais e dos garçons sorridentes que rodeavam o ambiente. Ela brinda sozinha. O quê? Talvez a vida e saúde dela. Só dela.
Eu instigava meu parceiro a observar a cena. Claro, não deixando de lançar minhas advertências:
- Se algum dia você pensar em fazer isso comigo, ao voltar, encontrará a cadeira vazia e a conta pra você pagar. Dane-se se não sobrar dinheiro pro táxi.
- Nossa, amor, você faria isso? - choraminga ao meu ouvido.
Nessa hora ele volta. Ajeita a camisa dentro das calças, suspende-as, sorri. Sorri como se nada estivesse acontecendo. Mal sabia a raiva que eu estava sentindo dele. Senta-se, mostra os dentes amarelos. Ela olha pra ele, passa a mão na cabeleira grisalha. Ele lambisca a comida, pede a sobremesa.
- Agora vai! – torci.
Não, não foi. Desta vez acho que devia ser um torpedo. Ele faz a ligação. A outra pessoa devia estar sem créditos.
Seria alguma imperdível negociação?
A essa altura, ela nem dava a mínima. Não se incomodava. Não desviava o olhar da televisão.
Anormal pra mim. Habitual pra ela, aparentemente desprovida do lado emotivo. Foi a essa conclusão a que cheguei.
Ele, um homem de tamanha insensibilidade e indelicadeza. Ela, uma mulher submissa a aceitar jantar sozinha mesmo acompanhada. E pior... Aceitar ser trocada por telefonemas fora de hora, sem fazer um escandalozinho básico de mulher.
Conveniência? Penso que sim. Um acordo! Nada romântico, por sinal.
Ela teve o jantar pago. Ele teria, no fim da noite, um sexo bem animal pra compensar o que gastou com ela.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

FELIZ 2012!





O último mês de 2011, a última semana, a última sexta-feira, o último dia de trabalho, o último telefonema dado, o último texto escrito.

Às 23h59, seu - também - último dedo da mão se desprenderá de 2011 para sempre. Só de imaginar, uma tristeza dá sinal de vida aí no fundo do seu peito. Você começa, então, a listar na agenda do seu íntimo tudo o que deixou de fazer, indo contra aquela insistente teoria: "não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje".

O sorriso que não doou, o colega que não perdoou, a visita ao doente que não fez. A roupa que deixou de comprar, a atenção ao filho que não deu, a matéria que não estudou. O doce que não comeu por medo de engordar, a oportunidade que perdeu de conquistar, o obrigado que esqueceu de pronunciar...

Por um lado, você economizou tanto a vida, que hoje restam apenas as memórias. O arrependimento por ações não completadas, por palavras não proferidas ou pelo tempo perdido com inutilidades.
Por outro, o ano até que rendeu. Trouxe muitas realizações, muitos momentos felizes e risos. Sem contar os explícitos sinais de Deus na sua vida.

Dentro de algumas horas, você estará com os pés em 2012. As emoções se entrelaçam de tal forma, que seu coração, sempre esperançoso, se rejubila ao saber que em breve estará nos braços abertos e acolhedores de mais um novo ano.
Estejamos, portanto, de peito aberto e limpo para recebê-lo. Renovemos as esperanças, sejamos mais crentes na força divina, estejamos dispostos a encarar os desafios e encorajados a olhar nos olhos. Permaneçamos fortes diante das adversidades que a vida, inevitavelmente, nos impõe. Agradeçamos. Cresçamos, perdoemos. Confiemos, saibamos esperar e, o mais importante: amemos mais. Acreditemos na força avassaladora do amor.

Mais do que a passagem do ano ímpar para o ano par, nossa vida deve ser um recomeço. Que nosso ser, nosso sentir e nosso viver registrem expressivos momentos nos 365 dias que vêm chegando.
Que o clássico do réveillon mantenha a harmonia e o perfeito tom.
Tenhamos todos um 2012 feliz, brilhante, cheio de desafios e boas oportunidades. Que tudo se realize, como diz a canção, é o que se espera e mesmo que não se tenha o muito dinheiro no bolso, é imprescindível gozar da boa saúde pra dar e vender.

Aproveitando mais uma vez da sensibilidade que Deus esqueceu em mim de transformar meus anseios e pensamentos em "coisas" escritas, desejo, aos meus leitores e seguidores e aos que ainda me (re)conhecerão em 2012, um ano de luz, (textos) e reflexões.

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Mesmo com o blog desatualizado durante meses por motivo de pesquisa acadêmica, vocês, leitores, não me abandonaram.
Obrigada!


Em 2012 estarei por aqui com novos textos todas as sextas-feiras.
Até mais!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL




Amigos blogueiros e amigos leitores,

Desejo a vocês um Natal de muita luz, muita alegria e que a corrida ao encontro do Menino Deus seja tão eficiente quando àquela que se faz com destino aos centros de compras.
Celebremos o dom da vida!
Feliz Natal!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ROMANCE DE NOVELA

- Ô, Dona Confidência, bonito esse rapaz, não acha?
Tratava-se de um entregador de verduras. Aparentava não mais que quatro décadas, apesar da pele judiada pelo sol. Homem simples, rodeado de mistérios. Não se sabe ao certo de onde vinha, onde morava.
- É, Cecília, mas ele é meio esquisito. Há anos entrega verdura aqui e nem sabemos o nome dele. Quando a gente fala bom dia, ele só dá com a cabeça.
Cecília era uma solteirona que trabalhava no varejão da dona Confidëncia. Nunca havia tido um companheiro. Criada só com o pai – muito conservador – foi ter seu primeiro emprego somente aos 44 anos, quando ele morreu. O conhecimento de vida que possuía não perpassava o que lia nos livros deixados pela finada mãe. Sonhava com a vidinha de casada, e era com a patroa que falava de seus anseios, suas vontades, seus sonhos, seus amores platônicos.
Com o primeiro ordenado comprou um televisor 14 polegadas. Passava ali, em frente ao aparelho, uma parte do tempo não vivido. Chegava ao trabalho cedinho e as primeiras horas eram dedicadas aos relatos das emoções vividas na noite anterior. Normalmente narrava o romântico encontro e os beijos nada econômicos dos artistas. Dona Confidência só ouvia. A moça sonhava em viver cenas como as da TV: encontros na praça da matriz romantizados pelo baile de casais apaixonados e testemunhados pela luz do luar.
Fechando os olhos, Cecília sonhava em voz sussurrante:
- A carícia nos cabelos, o toque dos lábios, a involuntária volúpia...
- Que é isso, Cecília? Você nunca foi assim – choca-se a patroa.
- Ai, dona Confidência... Estou sentindo umas coisas estranhas aqui no peito.
- Estou percebendo mesmo. Só que agora é hora de trabalhar. Vamos! Olha lá, o moço da verdura chegou.
Prontamente ela se refez. Assentou as sobrancelhas com os dedos levemente umedecidos pela saliva, sacudiu o avental. Nos últimos dias, Cecília parecia mais feliz.
- Boa tarde, seu Zé.
Era assim que Cecília o chamava.
Ele acenou a cabeça como de costume, fez a entrega e saiu.
Dia sim, dia não, era assim. Cecília sorria para ele que esboçava apenas um tímido ar de riso. Não conversavam, todavia certamente percebera o interesse da moça.
Preocupada com sua funcionária, dona Confidência chamou-a para uma prosa depois do expediente:
- Você é como se fosse minha filha, menina. Quero te ver feliz. Tenho percebido seu interesse pelo seu Zé da verdura. O que eu posso fazer para te ajudar?
Vermelha como um tomate, Cecília confessou:
- Dona Confidência... Estou com medo. Não conheço aquele rapaz. Não sei de que família vem, não sei onde mora, não sei o nome, a idade, nem a voz dele pude ouvir... E já sonho com ele fazendo juras de amor ao meu ouvido.
- Menina, menina. Isso é amor! Você está amando...
- Será? Amor é esse negócio que dá comichão na gente por dentro? – indagava Cecília, receosa.
Dona Confidência apenas sorria. Como agiria para unir aqueles dois destinos?
- Vou te ajudar, filha. Depois de amanhã, quando ele vier entregar a verdura, é dia de pagamento. Junto com o envelope do dinheiro, colocarei uma cartinha marcando o encontro de vocês aqui, no varejão. Tenho certeza de que ele também está de interesse por você. Agora vá pra casa, descanse, assista às suas novelas e pense em um discurso para a ocasião.
Assim fez Cecília. A aproximação se daria em dois dias. Ansiosa para o dia e horário marcados, ensaiou as mais belas palavras de amor em frente ao espelho. Reuniu uns versinhos antigos e colocou ali toda sua confiança. Queria o amor do Zé, que, na verdade, nem se sabia ao certo se era Zé, João, Joaquim ou Mané.
Doze de junho de 1985, 17 horas e 56 minutos. Cecília vestia sua melhor roupa para o encontro das 18 horas. Pediu a opinião da patroa.
- Está linda, minha filha. Ajeita só o laço de fita do cabelo. Fique aí aguardando. Eu vou me deitar. Qualquer coisa é só me chamar.
Às dezoito horas e três minutos, alguém bate à porta. Cecília se apruma e olha pela fresta. Era ele. Foi quando os sinais do amor tomaram conta daquele corpo e alma apaixonados: coração acelerado, mão geladas, frio intenso na barriga.
- Boa noite, seu Zé. Tudo bem? – estendeu a mão.
Ele acenou a cabeça numa resposta positiva, sem deixar cair o chapéu que diariamente usava. Ofereceu também a calejada mão.
- Chamei o senhor aqui porque tenho algo muito sério para dizer.
Zé da verdura apenas fixava seus verdes olhos nos dela.
- Primeiro quero saber seu verdadeiro nome. Posso?
O rapaz colocou a mão no bolso traseiro da calça, de onde retirou a carteira. Da carteira, um saco de plástico que continha seus documentos. Dentre eles, seu registro geral.
- Aqui está – exclamou a voz dantes nunca ouvida.
Cecília fitou assustados olhos no suposto Zé que, em seguida, concluiu:
- Maria das Dores da Silva.
- Corta, corta a cena! Perfeito, meninas! – exclamou o diretor da trama.
Dentro de poucos dias, as gravações iriam ao ar.